“Acelera e tem um bebé”: França envia cartas a jovens para aumentar a natalidade e gera indignação

O Governo francês começou a enviar cartas informativas a cidadãos na casa dos 29 anos para os alertar para o declínio da fertilidade associado à idade e incentivá-los a ponderar a parentalidade mais cedo, uma medida integrada num plano nacional para travar a queda da taxa de natalidade.

Pedro Gonçalves
Fevereiro 9, 2026
19:38

O Governo francês começou a enviar cartas informativas a cidadãos na casa dos 29 anos para os alertar para o declínio da fertilidade associado à idade e incentivá-los a ponderar a parentalidade mais cedo, uma medida integrada num plano nacional para travar a queda da taxa de natalidade. A iniciativa, que faz parte de uma estratégia com 16 pontos para aumentar o número de nascimentos, está a gerar críticas por ser vista como intrusiva e por colocar a responsabilidade nos indivíduos em vez de enfrentar obstáculos económicos e sociais mais profundos.

Para muitos destinatários, a correspondência oficial, distribuída através da La Poste, surge como um lembrete indesejado de que o chamado “relógio biológico” está a contar. Em vez de convites ou comunicações administrativas rotineiras, chegam mensagens do Estado a sublinhar a urgência de pensar em ter filhos “antes que seja tarde demais”.

Segundo o Ministério da Saúde francês, o objetivo destas cartas é “evitar a fase do ‘se ao menos eu soubesse’ mais tarde na vida”, procurando informar atempadamente sobre fertilidade e orientar quem enfrente dificuldades em engravidar para apoios médicos disponíveis. O mesmo ministério sustenta que “esta medida visa reforçar o poder de ação dos jovens adultos, sem injunções”, tentando afastar a ideia de pressão direta.

Ainda assim, a abordagem tem sido recebida com ceticismo. Críticos consideram que a estratégia concentra o debate na infertilidade individual, em vez de questionar fatores estruturais como precariedade laboral, custo da habitação, salários desajustados à inflação ou falta de serviços de apoio à infância.

Pressão social e maternidade mais tardia
Os dados demográficos mostram uma tendência crescente para a maternidade em idades mais avançadas. Há atualmente o dobro de mulheres a ter filhos depois dos 40 anos do que adolescentes a dar à luz. Em Inglaterra e no País de Gales, a idade média das mães atingiu 31 anos em 2025, o valor mais elevado de sempre, subindo para 32,5 anos na área de Londres.

Várias figuras públicas ilustram essa mudança. A criadora de “Fleabag”, Phoebe Waller-Bridge, teve o primeiro filho aos 40 anos, enquanto a actriz Michelle Dockery, conhecida por “Downton Abbey”, foi mãe aos 44. Estes exemplos são frequentemente citados como prova de que a maternidade tardia é cada vez mais comum e socialmente aceite.

Apesar disso, muitas mulheres relatam sentir uma pressão constante para engravidar mais cedo. Algumas comparam o ambiente actual a cenários distópicos, referindo que a insistência social e institucional se aproxima de uma obrigação moral, e não de uma escolha pessoal.

Barreiras económicas pesam mais do que a biologia
Para jovens adultos a viver em grandes cidades, a decisão de ter filhos é frequentemente condicionada por fatores financeiros. Há quem relate dificuldades em arrendar ou comprar casa, salários baixos face ao custo de vida, empréstimos estudantis e instabilidade laboral.

O peso dos encargos com a infância é outro obstáculo. No Reino Unido, por exemplo, o sistema de creches é apontado como o segundo mais caro do mundo. Um inquérito anual da Coram Family and Childcare indica que o custo médio de um lugar a tempo inteiro para uma criança de dois anos em Inglaterra ultrapassa as 14 mil libras por ano. A organização Save the Children estima ainda que 870 mil mães que ficam em casa gostariam de trabalhar, mas não o fazem devido ao preço e à escassez de cuidados infantis.

Este contexto alimenta a ideia de que a queda da natalidade está menos relacionada com falta de informação biológica e mais com condições materiais insuficientes.

Debate público marcado por declarações polémicas
A discussão sobre a natalidade tem sido intensificada por intervenções mediáticas. O ex-concorrente de “Love Island”, Chris Williamson, sugeriu num podcast de grande audiência que a diminuição dos nascimentos se deve à “emancipação socioeconómica das mulheres” e ao acesso a “contraceção fiável”, comentários que geraram críticas.

Também a cantora britânica Charli xcx, ao afirmar que não quer ter filhos, enfrentou reações de surpresa durante um podcast. O actor Jason Bateman respondeu que talvez ainda não tivesse encontrado “a pessoa certa”, ao que a artista esclareceu já estar casada e manter a mesma decisão, sublinhando o direito individual de escolha.

Relatos semelhantes surgem no contacto com profissionais de saúde. Algumas mulheres afirmam que, durante consultas médicas por problemas ginecológicos, foram aconselhadas a engravidar rapidamente como solução, recomendações que nem sempre têm fundamento clínico.

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